ltf-tecido-subcutaneo-conjuntivo-cirurgia-plastica-800x321 Detalhes tão pequenos de nós dois...

Detalhes tão pequenos de nós dois…

Aos meus colegas fisioterapeutas.

Você é fi­si­o­te­ra­peuta, tra­ba­lha com ci­rur­gia plás­tica, já fez vá­rios cur­sos so­bre pós‐operatório e ainda as­sim tem di­fi­cul­dade em re­sol­ver fi­bro­ses?

Precisamos con­ver­sar so­bre his­to­lo­gia, re­paro te­ci­dual e si­na­li­za­ção ce­lu­lar…

A his­to­lo­gia é a ci­ên­cia que es­tuda os te­ci­dos bi­o­ló­gi­cos, em sua es­tru­tura e fun­ci­o­na­mento. Estudamos his­to­lo­gia nos pri­mei­ros pe­río­dos da fa­cul­dade e te­mos uma ten­dên­cia enorme em dei­xar ela lá, por­que que­re­mos mesmo é apren­der como tra­tar os pa­ci­en­tes e re­sol­ver os pro­ble­mas de­les. O grande pro­blema co­meça, quando es­ta­mos com o pa­ci­ente e nada do que fa­ze­mos fun­ci­ona. Os re­cur­sos que en­si­na­ram pra gente não têm os efei­tos má­gi­cos que são des­cri­tos na te­o­ria. E agora? Vamos jun­tar to­dos eles para ver se fun­ci­ona! Vamos para as “te­ra­pias com­bi­na­das”. Não. Se não está fun­ci­o­nando, é hora de pa­rar e ENTENDER o que está acon­te­cendo…

Cada te­cido no nosso corpo tem uma es­tru­tura es­pe­cí­fica para que exerça ade­qua­da­mente sua fun­ção. Quando esta es­tru­tura por al­gum mo­tivo é al­te­rada, existe tam­bém uma al­te­ra­ção na fun­ção. Esta al­te­ra­ção pode – ou não – afe­tar a fun­ci­o­na­li­dade do in­di­ví­duo, de­pen­derá de vá­rios fa­to­res. A grande ques­tão é que as pes­qui­sas so­bre re­cur­sos te­ra­pêu­ti­cos e suas res­pos­tas fi­si­o­ló­gi­cas são fei­tas com te­ci­dos es­pe­cí­fi­cos, den­tro das ne­ces­si­da­des de cada te­cido, por sua es­tru­tura e fun­ção. Não po­de­mos usar uma pes­quisa feita em tipo te­ci­dual e ex­tra­po­lar seus re­sul­ta­dos para to­dos os te­ci­dos…

Quando tra­ba­lha­mos com ci­rur­gias plás­ti­cas, o te­cido aco­me­tido é o sub­cu­tâ­neo, for­mado por te­cido con­jun­tivo. O sub­cu­tâ­neo per­mite a mo­bi­li­dade da pele so­bre o mús­culo e quando ele so­fre uma le­são como nas ci­rur­gias plás­ti­cas, vai for­mar te­cido ci­ca­tri­cial que é li­mi­tante e pre­ju­dica as fun­ções nor­mais e o me­ta­bo­lismo. Frequentemente a per­sis­tên­cia de te­ci­dos ci­ca­tri­ci­ais gera pro­ble­mas nos te­ci­dos ad­ja­cen­tes, apri­si­o­nam ter­mi­na­ções ner­vo­sas e le­vam a li­mi­ta­ções fun­ci­o­nais ar­ti­cu­la­res e mus­cu­la­res e até ao de­sen­vol­vi­mento de do­res crô­ni­cas como nas li­po­as­pi­ra­ções na re­gião dos flan­cos, que po­dem afe­tar in­di­re­ta­mente a co­luna lom­bar…

Todo curso de ci­rur­gia plás­tica tem no pro­grama o tó­pico “Reparo Tecidual”. Nome bo­nito, né? Pois é…mas…se você ou­viu so­bre re­paro te­ci­dual mas nin­guém ci­tou mi­o­fi­bro­blas­tos e TGF‐beta‐1, pode ter cer­teza que você não sabe o su­fi­ci­ente para pro­por tra­ta­men­tos efe­ti­vos para fibroses…ahh es­ses de­ta­lhes…
Pois é. Durante o re­paro te­ci­dual, no con­jun­tivo, os fi­bro­blas­tos se di­fe­ren­ciam em mi­o­fi­bro­blas­tos – cé­lu­las es­pe­ci­a­li­za­das em sin­te­ti­zar os com­po­nen­tes da ma­triz e con­trair as le­sões. A ci­to­cina que es­ti­mula essa di­fe­ren­ci­a­ção (que ocorre com di­ver­sos es­tí­mu­los in­clu­sive ten­são me­câ­nica) é o TGF beta 1. Em ab­so­lu­ta­mente to­dos os ar­ti­gos que li (e olha que leio mui­tos, pois esta é mi­nha li­nha de pes­quisa desde que en­trei no la­bo­ra­tó­rio de re­paro te­ci­dual na UERJ em 2003) ci­tam a par­ti­ci­pa­ção do TGF beta 1 e dos mi­o­fi­bro­blas­tos na for­ma­ção das fi­bro­ses. Ah, mas isso é só um de­ta­lhe… (sqn!!!)

Um ou­tro “de­ta­lhe” é sa­ber que quando apli­ca­mos um re­curso te­ra­pêu­tico nos nos­sos pa­ci­en­tes, de­fla­gra­mos uma cas­cata de res­pos­tas. Essa cas­cata é de­vido ao me­ca­nismo de comunicação/sinalização ce­lu­lar. É jus­ta­mente o me­ca­nismo como as cé­lu­las res­pon­dem aos es­tí­mu­los que fa­ze­mos. São os fa­mo­sos “efei­tos fi­si­o­ló­gi­cos” que de­co­ra­mos bem di­rei­ti­nho na época da fa­cul­dade.
Precisamos en­ten­der que nem to­dos os efei­tos fi­si­o­ló­gi­cos são de­se­ja­dos e que al­guns des­ses efei­tos que vem na cas­cata de res­pos­tas pode ser jus­ta­mente o que não nos per­mite al­can­çar nosso ob­je­tivo te­ra­pêu­tico (Se em al­gum mo­mento esse re­curso es­ti­mula o TGFbeta 1 por exem­plo, não vai aju­dar nas fi­bro­ses…).
É pre­ciso sim sa­ber a fi­si­o­pa­to­lo­gia do pro­blema que es­ta­mos li­dando, e se não ti­ver­mos re­sul­ta­dos, é hora de pa­rar e re­pen­sar a con­duta.

Agora que já fa­la­mos des­tes “de­ta­lhes”, vale lem­brar tam­bém que nosso te­cido con­jun­tivo é com­posto por cé­lu­las e ma­triz e que nele es­tão in­se­ri­das es­tru­tu­ras im­por­tan­tís­si­mas co­nhe­ci­das como va­sos san­guí­neos, lin­fá­ti­cos e ner­vos. Tudo jun­ti­nho. Quando apli­ca­mos um re­curso, seja ele ma­nual ou ele­tro­te­ra­pêu­tico es­ta­mos afe­tando TODAS ESTAS ESTRUTURAS
Portanto, pre­ci­sa­mos sa­ber os efei­tos dos nos­sos tra­ta­men­tos em to­das elas.

E não, isso não é um de­ta­lhe. É jus­ta­mente esse co­nhe­ci­mento que di­fere você de um pro­fis­si­o­nal tec­ni­cista que é trei­nado para apli­car pro­to­co­los de equi­pa­men­tos com pa­râ­me­tros pre­es­ta­be­le­ci­dos.

Sejamos fi­si­o­te­ra­peu­tas de ver­dade!
Isso sim é qua­li­dade.

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